Luís
Vieira da Silva nasceu em Soledade (atual
Lobo Leite, distrito de Congonhas),
lugarejo da Freguesia de Ouro Branco,
Termo de Vila Rica, em 1735 (foi batizado
no dia 20 de fevereiro). Era filho do
Alferes (Auxiliares) Luís Vieira
Passos e Josefa Maria do Espírito
Santo. Sua mãe, em 1789, viúva,
morava na fazenda denominada "do
Guido", em Soledade, lugar conhecido
também por Passagem do Ouro Branco.
O pai era natural de São Miguel
de Vilela e a mãe da Freguesia
de Santo Ildefonso, Porto - Portugal;
casaram-se em Soledade e viveram sempre
na fazenda do Guido, sendo Luís
Passos carpinteiro. Matriculou-se em
17 de agosto de 1750, aos 15 anos de
idade, no Seminário de Mariana.
Ali ficaria dois anos, até que,
em dezembro de 1752, foi mandado a São
Paulo, fazer os cursos de Filosofia
e Teologia Moral, no Colégio
dos Jesuítas. Seu professor no
Seminário de Mariana passou-lhe
o seguinte atestado, encaminhando-o
aos colegas jesuítas: "José
Nogueira, Sacerdote professo da Companhia
de Jesus, lente atual de Moral e mestre
de Latim neste Seminário de Mariana
e examinador sinodal do mesmo bispado.
Certifico que o seminarista Luís
Vieira da Silva, desde que entrou neste
Seminário aos dezessete de agosto
de 1750, sempre procedeu com muita exemplaridade
de costumes na freqüência
dos Sacramentos e mais exercícios
de espiritual devoção
conforme a obrigação dos
seminaristas, sem que nestes dois anos
e quatro meses tivesse queixa alguma
dele, assim in genere morum, como na
aplicação profícua
dos seus estudos, nascido um e outro
proveito do seu bom gênio e engenho.
E para que conste desta verdade, lhe
passei esta por mim feita e assinada,
e jurada in verbo Sacerdotis. Seminário
de Nossa Senhora da Boa Morte, 7 de
dezembro de 1752. José Nogueira".
Luís Vieira graduou-se em Filosofia
e Teologia em 1757 em São Paulo,
aos vinte e dois anos de idade. Regressou
a Mariana e assumiu, antes de ser ordenado,
o cargo de professor de Filosofia no
Seminário, cadeira que ocuparia
por 32 anos, até ser preso em
1789. Nesses 32 anos formaria a monumental
biblioteca que lhe foi seqüestrada,
acervo cultural riquíssimo que,
em parte, vem sendo reencontrado nestes
últimos anos. Ordenou-se padre
a 21 de março de 1759, aos 24
anos, em cerimônia realizada em
Mariana pelo Bispo Frei Manuel da Cruz.
Em 1762 pretendeu ser pároco
de Catas Altas e Rio das Pedras (hoje
pertencente ao município de Congonhas),
mas não chegou a fazer o concurso.
De 1770 a 1773 exerceu o cargo de Comissário
da Ordem Terceira de São Francisco
de Assis de Vila Rica; em 5 de dezembro
de 1771 fez o sermão inaugural
da Igreja, obra de Aleijadinho. Foi
vigário interino de São
José del-Rei, passando o cargo
ao efetivo, Padre Carlos Correia de
Toledo, em 1777.
Em
4 de julho de 1780, vagou o lugar de
Cônego de Sé de Mariana
e Luís Vieira apresentou-se como
candidato. Tinha, portanto, 45 anos
de idade e 23 como professor de Filosofia
do Seminário; já devia
ter formado a sua biblioteca e solidificado
seu renome como orador em todas as principais
igrejas de Minas. O canonicato era um
título eclesiástico sem
poderes materiais, ao contrário
do vicariato, que tornava seu titular
rendeiro de tributos compulsórios.
No dia 20 de setembro de 1781 foi lavrada
Carta Régia de seu provimento
no canonicato, documento que chegou
a Mariana no início de 1782.
Havia indisposição contra
Luís Vieira no cabido de Mariana,
causado pelo ciúme de sua extraordinária
inteligência, pela suspeita de
"jacobinismo", ou pela contrariedade
ao seu estado não-celibatário,
não se sabe ao certo. Imagina-se
que a indisposição do
cabido de Mariana contra seu cônego
devia derivar-se de um dos dois seguintes
motivos - ou de ambos: primeiro, Luís
Vieira sempre fora um destacado cultor
da Filosofia e da História e,
como tal, durante mais de 20 anos lente
no Seminário, granjeara admiração
e impusera influência em várias
gerações de padres; era
um orador de fama reconhecida em toda
Minas Gerais, chamado sempre para as
cerimônias de maior destaque;
segundo, Luís Vieira tinha uma
vida sacerdotal incomum, pois tinha
mulher e uma filha, fato impossível
de ser desconhecido do público.
Além disso, nessa vida secular
paralela, acredita-se firmemente que
foi um dos introdutores das práticas
maçônicas em Minas, filosofia
que teria abraçado com entusiasmo.
E, sobretudo, Luís Vieira era
uma capacidade intelectual muito acima
da média de seus contemporâneos.
O vigário geral de Mariana, futuro
Cônego Santa Apolônia (Padre
Doutor João Ferreira Soares)
reteve o processo de canonicato de Luís
Vieira durante quase todo o ano de 1782,
enquanto tentava arranjar um motivo
para justificar o impedimento. Teria
forjado um processo em Sabará,
no qual Luís Vieira era acusado
de, através "de umas mulheres"
com as quais tinha "amizade",
ter fornecido pontos de concurso paroquial
ao Padre Joaquim José de Alvarenga.
O pretendente a cônego incorria,
assim, no crime de simonia, cuja pena
era a excomunhão (algumas dezenas
de anos antes, a Inquisição
quereria levá-lo à fogueira).
Sente-se nesse arranjo uma tentativa
de tirar as ordens de Luís Vieira
por um modo mais fácil; o estado
não-celibatário e a paternidade
de uma filha eram muito mais custosos
de provar. Luís Vieira entrou
com uma ação na justiça
contra o vigário em 1782 e em
7 de março de 1783 o Ouvidor
Geral de Vila Rica, Tomás Antônio
Gonzaga, prolatou sentença favorável
ao autor e arrasadora para o réu
caluniador. Teria nascido aí
a amizade entre os dois maiores líderes
da Inconfidência Mineira. O vigário
Soares foi obrigado a despachar o processo
nesse mesmo mês, fazendo-o contrariado,
incluindo no final: "Não
tenho impedimento que lhe resultasse
da devassa a que se procedeu na vila
de Sabará por causa do concurso
da igreja do Rio das Pedras - Fiat just.
Soares". No dia 24 de março
de 1783, Luís Vieira empossou-se
como cônego.
Na
década de 1780, Luís Vieira
da Silva tinha a mãe, viúva,
e mais duas irmãs, solteiras,
vivendo na Fazenda do Guido em Passagem
do Ouro Branco. Teve uma mulher, de
quem nunca se soube o nome; em 1791,
a filha de ambos, chamada Joaquina Angélica
da Silva, era casada com um médico
- Francisco José de Castro -
que estava em viagem fora do Brasil
e por isso residia em Vila Rica com
um cunhado.
Diante
de uma monumental biblioteca particular,
Luís Vieira da Silva foi Filósofo,
historiador, orador, analista profundo;
foi o revolucionário por excelência,
anunciando um Brasil livre, modelado
segundo as teorias iluministas de que
tão bem conhecia. A constituição
da república brasileira sairia
também de sua inteligência
privilegiada, que já conjecturava
há muito tempo como libertar
e dar ao país segurança
política. Imerso no processo
de independência dos Estados Unidos,
o cônego Luís Vieira percebeu
o desmoronar do colonialismo. Não
negou que lera a História da
América Inglesa e que pesquisou
o que sobre a mesma se publicava.
Luís
Vieira da Silva foi preso em 22 de junho
de 1789 aos 54 anos de idade. Depôs
pela primeira vez na condição
de preso em 1º de julho de 1789,
na Casa dos Contos em Vila Rica. Foi
interrogado mais duas vezes, nos dias
11 e 23 de julho de 1789 e acareado
com Basílio de Brito. Seus depoimentos
foram todos lacônicos. No terceiro
depoimento, negou que tivesse abonado
o ânimo do Alferes Joaquim José
da Silva Xavier e que tivesse dito qualquer
coisa contra o direito do Rei de Portugal
sobre o Brasil (os devassantes estavam
de posse da denúncia de Basílio
de Brito, mas Luís Vieira não
sabia). Trazem à sua presença,
então, Basílio e lêem
a sua denúncia; Luís Vieira
responde que "era tudo uma soleníssima
falsidade". Nega que tivesse falado
a Basílio em particular. Basílio
insiste, lembrando outros detalhes da
conversa: Vieira lembra o caso da morte
por Borba Gato do enviado real à
rota Fernão Dias Pais, Dom Rodrigo
de Castelo Branco. Luís Vieira
aproveita a chance para confundir e
humilhar o acareante e os interrogadores,
dizendo que Basílio mentia, porque
à época Minas não
tinha nem Governador (o delator, meio
obtuso, dissera que o Padre lhe contara
sobre a morte de um governador em Fidalgo,
Comarca de Sabará). Com isso,
encerrou-se a acareação,
porque talvez os devassantes desconhecessem
a história de Minas e ficassem
sem saber o que fazer diante da incongruência
do acareante, frente a frente com um
cérebro do porte de Luís
Vieira.
No
dia 23 de setembro de 1789, foi remetido
ao Rio de Janeiro, junto com Luiz Vaz
de Toledo Piza e Domingos de Abreu Vieira
e lá preso na Fortaleza da Ilha
das Cobras. Ficou quase um ano na prisão,
incomunicável, até sair
para ouvir a sentença. Mas nem
isso lhe foi dado: os eclesiásticos
nunca souberam o resultado do julgamento
sobre eles.
Os
réus eclesiásticos foram
surpreendidos por uma decisão
sui generis da Comissão de Alçada
que veio de Lisboa especialmente para
julgar os inconfidentes mineiros: sua
sentença não lhes seria
dada a conhecer. Seria lavrada e remetida
diretamente à Rainha para decisão
final. A Carta Régia secreta
que a Comissão trouxe ao Brasil
continha uma disposição
especial para os eclesiásticos
- "quanto aos réus eclesiásticos,
que sejam remetidos a esta Corte debaixo
de segura prisão com a sentença
contra eles proferida, para à
vista dela, eu determinar o que melhor
me parece". Dona Maira I era muito
religiosa e seu Ministro do Ultramar,
Dom Martinho de Melo e Castro, que parece
ter sido o inspirador da Carta, era
também padre. Certamente receavam
ambos também a repercussão
negativa dentro do clero e sobre o povo
de uma sentença que mandasse
pendurar pelo pescoço diversos
clérigos. Quanto a Luís
Vieira da Silva soube-se então
que a Alçada considerou-o réu
secundário (ele derrotou com
sua estratégia o poder dos devassantes)
e sentenciou-o a degredo perpétuo
para a Ilha de São Tomé.
Ficou preso por quatro anos na Fortaleza
de São Julião da Barra,
esquecidos. Em 1796 os réus obtiveram
autorização para deixar
a prisão e recolheram-se a conventos.
Luís Vieira da Silva foi para
a clausura no Convento de São
Francisco da Cidade e ali permaneceria
mais seis anos.
Em
1802, os padres começaram a ser
indultados. O Padre José Lopes
de Oliveira havia falecido na prisão
em 1796.
É
certo que Luís Vieira da Silva
regressou ao Brasil. Há informações,
sem fundamentação, de
que teria ido viver o resto de seus
dias em Angra dos Reis ou Parati, contando
então, em 1805, 70 anos de idade,
dos quais os últimos 16 como
prisioneiro. Há notícia
de que teria falecido em 1809 em Parati,
sendo lá enterrado, como simples
sacerdote; mas há suposição
em contrário, mais lógica
diante da inexistência de provas,
de que teria regressado a Soledade para
viver em companhia das irmãs
e da filha. Luís Vieira da Silva
renunciou ou foi exonerado do canonicato
da Sé de Mariana em 1797, pela
Mesa de Consciência e Ordens de
Lisboa.
Após
análise e releituras incontáveis
dos documentos, é convicto que
Luís Vieira da Silva foi o maior
líder da conspiração
republicana mineira de 1785-1789, ao
lado de Tomás Gonzaga. Luís
Vieira foi o criador do movimento, líder
intelectual, coordenador, estrategista.
A opinião da Alçada no
acórdão, reconhece que
ele teve a primazia na organização
da conspiração.
A
historiografia é unânime
em declarar que Luís Vieira da
Silva foi uma inteligência brilhante.
A ele são dedicadas as seguintes
expressões: "um dos grandes
oradores sacros de Minas e foi considerado,
sem contestação, entre
os mais sábios intelectuais de
sua geração" - "o
padre mais notável da Inconfidência",
"ilustração respeitável
para o tempo em que vivia", "pregador
de renome" - "homem de talento
e ilustração. Cultor apaixonado
da História"- "Homem
de grande inteligência e vastíssima
cultura espiritual" - "a maior
figura intelectual de Minas no século
dezoito" - "intelectual deveras"
- "homem de cultura profunda e
eclética" - "o mais
instruído e eloqüente de
todos os conjurados", "Diretor
espiritual, monopolizador das letras
e cultura do tempo" - "cabeça
sólida e caráter da melhor
fibra". Na cabeça do cônego
Luís Vieira da Silva, fundir-se-iam
numa síntese feliz as verdades
da fé ou do coração
com as verdades da razão e da
ciência.
Foi
talvez a maior "cerebração"
de Minas, na época da Inconfidência,
e, muito provavelmente, um dos primeiros
a coordenarem o movimento libertador.
Homem de grande inteligência e
vastíssima cultura espiritual,
o Cônego Luís Vieira foi,
sem dúvida, um dos organizadores
e propagandistas de uma reação
contra a Coroa portuguesa, preparando
as idéias filosóficas
iluministas e doutrinando os dirigentes
das elites de sua época